quarta-feira, 23 de abril de 2014

Salgueiro Maia

Quarenta anos passaram desde a célebre madrugada de 25 de abril de 1974. Salgueiro Maia, um dos heróis de abril (para mim o principal), hoje quase esquecido, não fosse o município de Santarém lhe ter erguido uma estátua, as gerações do pós 25 de abril nem saberiam quem ele foi.
O golpe, para derrubar o regime, para muitos dos envolvidos, era mais um entre muitos que haviam falhado. Salgueiro Maia seria “carne para canhão”. Possivelmente, alguns dos que hoje reivindicam falar nas cerimónias na Assembleia de Republica, não acreditavam no sucesso do golpe.
Esses, para bem do país, poderiam ter feito como o Almirante Cândido dos Reis em 1910, quando pensou que o golpe, para derrubar a monarquia, tinha falhado, suicidou-se. 

A determinação e coragem de Salgueiro Maia estão patentes nas palavras que proferiu, naquela madrugada, para os subalternos e que sito: “Meus senhores, como sabem, há diversas modalidades de Estado. Os sociais, os corporativos e estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegamos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto.”
Daquilo que li sobre Salgueiro Maia, fiquei com a imagem de um homem determinado, teimoso, vertical, humano, honesto, duro e incapaz de tirar benefício pessoal daquilo que fazia.
É sua a frase: “O compromisso para fazer o 25 de abril, que assumi perante os meus homens, foi que daí não resultaria poder pessoal. Portanto, o 25 de abril também não iria fazer para os militares ficarem no poder. E eu em especial.”
Nos meses que se seguiram ao golpe, recusou ser comandante da Escola prática de Cavalaria, integrar o concelho da revolução, ser adido militar numa embaixada e governador civil em Santarém.
Um dos seus camaradas, Tavares de Almeida, que o acompanhou em quase todos os movimentos na madrugada de 25 de abril de 74, relata o seguinte: “Maia é incansável, não come, não bebe e está vinte e quatro horas sem parar um minuto sequer. Verdadeira máquina de guerra, preparado para toda e qualquer circunstância, assume permanentemente um papel de líder, mas sem que, para tal, alguma vez adopte uma postura arrogante ou individualista.”

Relatos de camaradas seus, dizem que, quer em Moçambique quer na Guiné, ao serviço das tropas portuguesas, desempenhou sempre os cargos que ocupou com valentia e determinação, mesmo já por fim, quando já punha em causa os objectivos da guerra, não deixou de desempenhar as funções que lhe foram atribuídas.

Passou a ser uma pessoa incómoda para muitos, sendo inclusive apelidado de arrogante e vaidoso. Recusava constantemente dar entrevistas, dizia que não as dava porque tudo o que dissesse seria considerado afronta. Aos poucos foi sendo posto à margem dos cargos militares o que lhe proporcionava muitos tempos livres. Foi nessa época que concluiu duas licenciaturas, uma em Ciências Politicas e Sociais e outra em Ciências Antropológicas e Etnológicas. Já com as duas licenciaturas concluídas, é destacado para Santarém, não para a sua Escola Prática mas para o presidio militar, onde presou serviço. Anos mais tarde, disse sobre esta passagem: “Continuei a cumprir pena sem saber porque fui condenado.”

Foi com o General Ramalho Eanes, como Presidente da Republica, que Salgueiro Maia voltou a ser tratado com a dignidade que merecia. A condecoração com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade foi o início de um novo ciclo. Após este momento, foi frequentar o curso Geral de Comando e Estado-Maior no Instituto de Altos Estudos Militares. Veio, depois, a chefiar a secção de logística da escola Prática de Cavalaria.
Em 1989 descobre que tem um cancro nos intestinos, convive com a doença durante alguns anos e, enquanto pôde, escondeu a doença à família. “Homens grandes como Salgueiro Maia deviam morrer não de um cancro qualquer, mas de pé, fulminados por um raio.” Escreveu Fernando Assis Pacheco, jornalista na época.
Faleceu a 4 de abril de 1992, nessa altura era Tenente-Coronel.

A História de Portugal é rica em personagens corajosas, que se bateram por valores e princípios, como foram D. Afonso Henriques, D. Nuno Alvares Pereira, Infante D. Henrique, Luís de Camões, Sidónio Pais, entre outros. Salgueiro Maia está, sem dúvida, ao nível de qualquer um deles.
Fontes: Wikipedia e Duas Faces da QuidNovi- Edições e Conteúdos, S.A.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Por um sentimento

Há pequenos gestos que são reveladores de muito daquilo que não se consegue dizer. As palavras, entaladas pela razão, são reveladoras dos sentimentos, e o silêncio, ainda que ensurdecedor, deixa-nos num misto de culpa e ansiedade. Pensamos, ou fazem-nos pensar, que somos aquilo que realmente não somos. Andamos como que numa levitação originada por um ilusão banal. Afinal quem somos? … Quem nos procura? ...

Do amargo do sentimento, retiramos o que de “melhor” se pode tirar, a SAUDADE!

“O instante doado pela vida que já é passado, a existência em movimento e ela imutável...verdade bela e dolorosa...saudade é muito além de expressão, da palavra pobre diante da grandiosidade do sentimento.” CFLC 2010

A saudade torna-nos seus servos sem que para isso dessemos autorização. Vivemos curvados à sua força e grandiosidade… sangramos nos sentimentos como se tivéssemos sido trespassados por uma lança, a ausência …


Não devemos viver submissos ao capricho de um sentimento mundano que nos corrói e nós atrofia … a reposição, substituição até, do sentimento pela causa, poderá ser a solução ou a forma de nos libertarmos das suas garras felinas …

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Fins de semana à tarde

Num destes sábados, à tarde, resolvi não fazer nada e sentar-me em frente à televisão para ver o que elas tinham para me oferecer. De zapping em zapping, ia sempre dar ao mesmo, os três canais de sinal aberto estavam em sintonia. Todos passavam programas muito semelhantes com apresentadores, na minha opinião, um pouco “apimbalhados” e que passavam o tempo a pedir para as pessoas ligarem para um tal numero (706 qualquer coisa) que, ao que parece, anda a ser uma boa fonte de receita para as televisões. Anunciam, que a pessoa que for sorteada será contemplada com uns milhares de euros.
Pelo que percebi, estes programas têm dois momentos. Um em que um artista canta e outro em que um apresentador pede, ou melhor, implora para que liguem para o número de telefone. Estes dois momentos vão alternando ao longo do programa e assim se passa uma tarde. (Não a minha porque ao fim de meia hora estava farto do programa e mudei para um canal informativo). Num dos canais, o apresentador, fazia o pedido para ligarem de uma forma tão sofredora e apelativa, que me pareceu estar, o trabalho dele, dependente do número de telefonemas que conseguisse nessa tarde.
Fiquei tão preocupado com a programação das televisões que, no dia seguinte, domingo à tarde, por curiosidade liguei a televisão e fui ver o que estava a dar. Apenas tinha mudado o cenário (agora ao ar livre), o género era o mesmo. Um cantor logo seguido dos apresentadores a pedirem, para as pessoas ligarem.
Não consegui contar a quantidade de vezes que ouvi os apresentadores dizerem “ligue para o numero ….., ligue agora”, “não deixe fugir esta oportunidade”,…. Passaram o programa, pelo menos enquanto eu estive a ver, a dizer a mesma coisa.
Dei comigo a pensar no ponto a que chegou a programação das televisões em Portugal. Que pensará o Júlio Isidro ou o Fialho Gouveia (ainda que noutro mundo) sobre a programação atual das televisões portuguesas que emitem em sinal aberto? Não querendo ser saudosista, recordo os programas das tardes de sábado e domingo de alguns anos atrás, com os apresentadores que referi e outros.
Será, este tipo de programação, o reflexo da cultura atual do nosso país?
Se assim é, regredimos na cultura?
Ou sempre fomos assim, tivemos foi, no passado, programas que estavam desenquadrados com a cultura de então?

Reconheço, também, que poderei eu estar errado! 

quarta-feira, 19 de março de 2014

DIA DO PAI

O PaiTerra de semente inculta e bravia, 
terra onde não há esteiros ou caminhos, 
sob o sol minha vida se alonga e estremece. 

Pai, nada podem teus olhos doces, 
como nada puderam as estrelas 
que me abrasam os olhos e as faces. 

Escureceu-me a vista o mal de amor 
e na doce fonte do meu sonho 
outra fonte tremida se reflecte. 

Depois... Pergunta a Deus porque me deram 
o que me deram e porque depois 
conheci a solidão do céu e da terra. 

Olha, minha juventude foi um puro 
botão que ficou por rebentar e perde 
a sua doçura de seiva e de sangue. 

O sol que cai e cai eternamente 
cansou-se de a beijar... E o outono. 
Pai, nada podem teus olhos doces. 

Escutarei de noite as tuas palavras: 
... menino, meu menino... 

E na noite imensa 
com as feridas de ambos seguirei. 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Fernando Tordo emigrou para o Brasil

Fernando Tordo emigrou para o Brasil. Cresci a ouvir as músicas dele e de outros cantores da sua geração. Independentemente de ideologias politicas, sempre senti uma grande admiração por toda essa geração de cantores. Poderia aqui enumerar um sem fim de cantores portugueses que marcaram a minha adolescência, como Paulo de Carvalho, Paco Bandeira, José Afonso (já falecido), Carlos do Carmo, José Cid, Carlos Mendes, António Calvário, Tony de Matos (já falecido), etc, etc …
Custa-me compreender como é que uma pessoa, aos 65 anos, resolve abandonar o país e emigrar. Não estou a ver alguém com essa idade pegar na mala e emigrar sem destino certo, sem saber o que o espera. Possivelmente, terá propostas de trabalho do outro lado do oceano. Estou certo que sim.
O filho, João Tordo, escreveu no seu blog que o pai recebe uma pensão de pouco mais de 200,00 euros. Fiquei inquieto a pensar o porquê de uma pensão tão baixa. Realmente é uma pensão muito baixa para alguém que trabalhou toda a vida. Por outro lado, sei que as reformas são, em geral, baseadas nos descontos efectuados ao longo da vida. Assim sendo, presumo que o Fernando Tordo terá feito descontos muito baixos. Das duas uma, ou nunca fez descontos, o que me custa a crer, ou fez descontos tendo por base um salário muito baixo. Não seria o primeiro, como empresário, a fazer descontos pelo mínimo aceitável pela segurança social.
Não quero condenar a pessoa em causa, apenas quero compreender o porquê de uma reforma tão baixa e da sua saída de Portugal.
Terá ele contribuído para a segurança Social como trabalhador independente e terá declarado um rendimento baixo para que os descontos fossem também baixos?
É certo que ninguém tem nada a ver com a vida do Senhor, mas perturba-me ver alguém tão querido pelos portugueses sair desta maneira de Portugal e proferir as palavras que proferiu na sua despedida.

Espero que as hipóteses que levantei para justificar a baixa reforma estejam erradas. A serem verdade, também ele teria contribuído para, de forma fraudulenta, o estado a que chagamos em Portugal. Não quero acreditar nesta versão.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Os quadros de Miró

Então o Estado português não pode vender o pouco que resta com valor da despesa mais desastrosa do século? (não lhe chamo investimento, investimento é outra coisa )


Não se esqueçam que a nacionalização do banco BPN já custou aos portugueses  1,7 mil milhões de euros. Poderá já ter custado mais, pois a noticia é de julho de 2013. 

O governo socialista nacionalizou o banco invocando o efeito de contágio caso este falisse. Até hoje não vi um único estudo que quantificassem esse contágio pelo que tenho as minhas dúvidas quanto à certeza de que a nacionalização foi a melhor opção. E depois, quando vem a público o nome das pessoas envolvidas e interessadas na gestão do banco, as minha dúvidas aumentam, tornando-se em certezas. O banco deveria ter falido. 
Com o custo da nacionalização, mais as surpresas financeiras e económicas que o Estado teve até ao momento, segundo o referido jornal, o valor ultrapassa o valor acima referido.
No meio de todo o lixo encontrado nos investimentos do BPN, estavam os quadros de Miró, avaliados em alguns milhões de euros. O Estado português, e bem, resolveu leva-los a leilão para assim amortizar a despesa da nacionalização.
Agora vêm os deputados socialistas, responsáveis pela nacionalização do banco, dizer que os quadros não podem ser vendidos.

Certamente querem os quadros nos seus gabinetes.


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

o meu livro

Cada livro tem sua história,
a que o autor criou,
a de quem o comprou,
a de quem o leu,
e porventura a de quem não leu
…terá ouvido falar.

Já li livros que não esqueço,
alguns, gravados na memória,  
cada qual com sua história.

Textos são armas de arremesso
Gritos de dor e de saudade
Lembranças que não esqueço
Memórias para a eternidade.

Este que te ofereço
Será o selo, autenticação,

Admiração e apreço.

Carlos Pereira